Contas de vidro reciclado com padrões azuis e amarelos, em colar, pulseira e brincos feitos à mão pela CVR, no Príncipe

As Mãos que Fazem o Príncipe

Uma garrafa chega a uma oficina no Príncipe e, pouco depois, já não é uma garrafa.

Pode tornar-se um fio de contas cheias de cor, um par de brincos ou um colar. Outra garrafa pode ir parar às mãos da Flávia, que visualiza um copo, uma jarra ou uma taça onde outra pessoa simplesmente vê lixo. Um pedaço de madeira, destinado à pilha de lenha, transforma-se num pássaro, numa máscara ou num pequeno objeto esculpido. E na Terra Prometida, o tecido africano cheio de padrões é cortado, cosido e transformado em sacos, vestuário e peças para usar todos os dias.

No Príncipe, fazer coisas à mão é muitas vezes menos uma questão de partir da matéria-prima perfeita do que de saber o que fazer com aquilo que já existe.

Esse instinto atravessa o trabalho dos artesãos da ilha. São quatro, em quatro pequenas oficinas, cada uma com a sua própria história.
 

A Bela e a Zinha, e as garrafas que se tornaram joalharia

Na Cooperativa de Valorização dos Resíduos, a Bela e a Zinha recolhem garrafas de vinho e de cerveja descartadas e transformam-nas em peças de joalharia. O vidro é triturado, moldado e cozido em forno antes de cada peça ser trabalhada à mão. Para a Bela, uma garrafa vazia nunca é apenas lixo.

O trabalho mudou mais do que a paisagem ao seu redor. Mudou também as suas próprias vidas, ao dar às duas mulheres um rendimento próprio e a possibilidade de sustentar as suas famílias. A cooperativa tornou-se uma das iniciativas de artesanato mais antigas do Príncipe e conta com o apoio contínuo da HBD Príncipe e da Príncipe Collection para ajudar estas mulheres a desenvolverem o seu trabalho.

Retrato ilustrado da Bela e da Zinha, da cooperativa CVR, que transformam garrafas descartadas em joalharia de vidro reciclado

A Flávia, e a oficina que começou em casa

A pouca distância, acontece outro tipo de transformação.

Flávia Andrade, fundadora da Inovarte, começou a fazer experiências com garrafas descartadas depois de reparar em quantas se iam acumulando num bairro recém-construído. Começou a trabalhar em casa, partindo garrafa atrás de garrafa enquanto tentava compreender aquilo em que o material podia transformar-se. Houve muitas tentativas falhadas. Ri-se ao contar quantas garrafas partiu. Mas não desistiu.

Hoje, a sua oficina produz copos, jarros, taças, jarras e peças decorativas, cada uma feita à mão.

Retrato ilustrado da Flávia, fundadora da Inovarte, que transforma garrafas descartadas em copos e jarros feitos à mão
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O Ivo, e os restos de madeira que não foram para a fogueira

Depois, há a madeira.

Para Emiliano “Ivo” Mendes Semedo, um pedaço de madeira já tem uma história antes de ele lhe tocar. A trabalhar na comunidade da Terra Prometida, escolhe restos de madeira das carpintarias da HBD e de outras carpintarias, peças que de outra forma seriam descartadas ou usadas como lenha. Não há um projeto à espera dele. Olha para a madeira e decide aquilo em que ela se pode transformar.

A sua oficina está cheia de pássaros, máscaras, carrinhos de brincar, cinzeiros e outros objetos. Algumas peças levam um dia inteiro a ficar prontas, sobretudo sem maquinaria específica. O Ivo não parece incomodado com o ritmo.

Retrato ilustrado do Ivo, o artesão da Terra Prometida que transforma restos de madeira em pássaros e máscaras

A Mana, e o curso que quase não chegou a fazer

A paciência também faz parte da história da Mana, ainda que o seu caminho até ao artesanato tenha sido bem diferente.

Lucineide “Mana” Soares nunca esperou tornar-se costureira. Quando a HBD Príncipe organizou um curso de costura, começou por recusar. Achava que ia ser demasiado difícil. Acabou por experimentar, depois de algum incentivo. Após a formação, recebeu a sua própria máquina de costura e começou a desenvolver as suas competências.

Hoje, a costura dá à Mana algo que antes não tinha: um rendimento próprio. Faz sacos de pano, sacos para roupa, kits de amenities, guardanapos e peças de vestuário como parte de The Tailors of Sundy & Terra Prometida. Gosta especialmente de trabalhar com tecidos africanos cheios de cor.

Retrato ilustrado da Mana, costureira de The Tailors of Sundy & Terra Prometida, que cose sacos e roupa em tecidos africanos

Objetos pequenos, histórias grandes

São oficinas modestas e os objetos que produzem são muitas vezes pequenos. Mas as histórias por detrás deles não são.

Juntas, revelam um outro lado do Príncipe, que não se compreende apenas olhando para a floresta, para as praias ou para as antigas roças. Está nas mãos de pessoas que aprenderam a fazer, a adaptar e a criar com aquilo que a ilha lhes dá.

Alguns materiais são antigos. Outros foram descartados. Outros são familiares. O que muda é a forma como os encaramos.

Levar para casa

Talvez seja isso que faz destas peças algo que vale a pena levar para casa. Um colar feito de uma garrafa, um copo moldado a partir de material descartado, um pássaro esculpido em madeira ou um saco cosido em tecido africano não é apenas algo feito no Príncipe.  Carrega a história da pessoa que o fez, do material de que veio e do lugar que lhe deu sentido.

As criações destes artesãos estão à venda nas boutiques dos hotéis da Príncipe Collection e, em breve, também na Casa Verde. Os hóspedes podem ainda combinar visitas a algumas das oficinas durante a estadia, para conhecer as pessoas por detrás das peças e ver o trabalho de perto.

Porque, às vezes, a melhor forma de compreender um lugar é olhar para o que ali se faz com as mãos.

Colar, pulseira e brincos a condizer em contas de vidro reciclado com padrões vermelhos e amarelos, no Príncipe
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